domingo, 14 de maio de 2017

VASCO 2017: LIVRO "100 ANOS DA TORCIDA VASCAÍNA", 1996 A VOLTA DO CHORÃO

                                                                                                          “Eurico, 171”
                                                                                                    Grito de protesto

1996                      A Volta do Chorão

Com a continuação da oposição aos principais dirigentes do clube, a Força Jovem amplia suas fontes de renda e consegue fazer  em maio uma grande festa reunindo músicos vascaínos de renome, como Fernanda Abreu, Dicró, Paulinho Mocidade e  Celso Blues Boy. Cada um com seu estilo musical, mas conscientes que aquela reunião serviria para ajudar a principal torcida organizada do Vasco manter sua atitude de independência e de fiscalização diante das arbitrariedades dos cartolas. Neste ano a agremiação trocaria novamente de sede, saindo do subúrbio (Piedade, desde1993) e passando para o centro da cidade, buscando um local de facil acesso para todas as regiões.
Em setembro a Torcida Força Independente que se originou de uma dissidência da Força Jovem no final dos anos 1980, resolveu se unir e extinguir com a antiga dissidência. Foi um passo importante para a Força Jovem se fortalecer diante dos torcedores vascaínos e dirigentes, provando que o caminho escolhido era o melhor. Pouco depois a torcida faz campanha aberta para o empresário José Moraes para a sua reeleição para vereador. O político era um antigo conhecido da torcida e participou financeiramente para a construção do bandeirão em 1992. No material informativo da associação são feitos vários elogios ao empresário e adverte que o apoio tem uma causa nobre pois Moraes “informatizou a nossa Sede, além de ter patrocinado a nossa Festa de 25 anos, em 1995. Durante todo esse tempo temos mantido um diálogo franco e tivemos o seu compromisso de que, a partir de sua reeleição, ele contribuirá de forma muito mais efetiva e prática para com a nossa torcida. Não se trata de uma troca de favores mais de mãos se estendendo em direção a um mesmo ideal, a causa Vascaína. Ele precisa de nosso apoio e nós precisamos de sua voz e do seu poder para estar do nosso lado”. É obvio que a torcida vivia um estrangulamento financeiro com a briga com os dirigentes e a ação de pedir ajuda a um padrinho não era uma prática nova no mundo do futebol, outras torcidas fizeram e esta não seria a primeira nem a última organizada a recorrer destes expedientes. Nessa mesma eleição o radialista Áureo Ameno fez toda a sua campanha pedindo votos para a torcida vascaína e acabou sendo eleito.
Eurico Miranda e a Força Jovem brigaram durante todo o ano de 1996, porém, um fato os uniu: a revolta diante da atitude de Bebeto que volta para o Brasil e escolhe ficar no Flamengo.
Quando deixou o Vasco em 1992 para ir jogar na Espanha, Bebeto saiu como um grande ídolo e nunca teve problemas com a torcida do Vasco, pelo contrário, teve o apoio freqüente ainda mais quando ele revelou que mudar do Flamengo para o Vasco era a oportunidade de realizar o sonho de jogar no clube de seu coração na infância.
Aos 32 anos, Bebeto deixou o clube espanhol, voltando ao Flamengo, para  disputar o Campeonato Brasileiro de 1996. Porém, a relação com a torcida rubro-negra não era a mesma; poucos haviam se esquecido que, em 1989, o atacante declarou-se vascaíno na infância, ao chegar a São Januário. Assim que chegou a Gávea fez questão de afirmar que seu clube do coração era o rubro-negro[1]. O Flamengo fez péssima campanha no brasileirão e Bebeto acabou sendo responsabilizado. Ainda em 1996, desligou-se novamente do Flamengo e voltou à Espanha, agora para jogar no Sevilla, mas não se saiu bem. O mesmo aconteceu nas Olimpíadas nos EUA quando Bebeto estava na seleção que foi derrotada vergonhosamente para a Nigéria por 4 a 3. Praga dos vascaínos.
Bebeto foi hostilizado pela massa vascaína que passou a chamar-lhe de “Chorão” e a própria torcida do Flamengo não lhe deu o apoio necessário.
Outro nome que fracassou nas Olimpíadas em 1996 era Zagalo, que passou a comandar a seleção brasileira desde agosto de 1994 após a saída de Carlos Alberto Parreira. O técnico foi escorraçado pela torcida do Vasco em 1991, inconformada com seu estilo de jogo adotado e de sua maneira arrogante de ser. Em uma carta de despedida um torcedor da Força Jovem escrevia para o treinador: “A Força Jovem do Vasco vem através desta, mostrar toda a sua alegria com a saída do treinador Zagalo, que finalmente caiu na real depois de ter feito o nosso glorioso Machão da Gama passar por maus momentos. Zagalo acusa a Força Jovem de ter sido responsável por sua saída do Clube. A ele gostaríamos de dizer o seguinte: “Caro retranqueiro. Não é a Força Jovem, que escala o time e nem arma táticas de jogo. Por isso a sua saída foi pela própria incompetência. Gostaria de agradecer a Diretoria da Força Jovem, pelo seu mais recente título de “A Correspondente do Ano”. Depois de termos superado grandes facções, esperamos apenas um contato da famosa Máquina Tricolor para recebermos nosso troféu. Aqui me despeço deixando um forte abraço a todos da Força Jovem do Vasco. Rogério Manteiga, Relações Públicas da FJV”[2].
A briga entre torcedores e técnicos já era uma tradição no futebol brasileiro. A novidade vinha da extrema mercantilização das relações entre as grandes empresas que passam a investir fortunas em contratos polêmicos. O melhor exemplo foi o acordo entre CBF e Nike por 10 anos com cifras de US$ 170 milhões. No futebol globalizado, a presença do marketing esportivo cada vez  fala mais alto e a voz dos torcedores nas arquibancadas e gerais vão sendo substituídas pelos desmandos dos dirigentes e empresários que se preocupam em garantir a comercialização do espetáculo em outros níveis.
Esta será uma tendência marcante a partir de meados dos anos 1990 com a “reconfiguração do futebol brasileiro produzida pela alteração na legislação esportiva e pela expansão dos mercados associados a comercialização do espetáculo” (Proni, 1999, p.41). Junto destas mudanças outras iniciativas já apontavam com a mudança do perfil do torcedor nos estádios, com a elitização das praças esportivas em função do aumento do preço dos ingressos, a expansão dos canais por assinatura e do pay-per-view: “o futebol passará a ter tratamento ‘vip’ e empresarial, um grande negócio que vende a seus consumidores o conforto, a comodidade e a tranquilidade” ( Pimenta, 1999, p,138).
Fonte: Livro “100 anos da Torcida Vascaína”, escrito pelo historiador Jorge Medeiros.


[1] Em entrevista concedida a Léo Batista, no programa Esporte Espetacular, da Rede Globo (dia 28/10/2007), confirmou ser torcedor do Flamengo.
[2] Fonte: Jornal dos Sports 1996.

Vasco Maracanã 1996

Vasco São Januário 1996

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